18 março 2014

Capitão aposentado relata história de superação contra alcoolismo

A minha história com o alcoolismo começa na adolescência, aos 13 anos, quando bebi pela primeira vez. Estava entre amigos, numa confraternização, em 1967. Nunca tinha bebido nem cerveja e, naquele dia, experimentei cachaça. Não gostei, senti-me muito mal. Passaram-se cinco anos. Na minha família, eu não me lembro do meu pai bebendo, mas ficaram as histórias de que ele bebia. Na família, três irmãos mais velhos ingeriam álcool e os mais novos usavam a bebida socialmente. 

Morava em uma cidade do interior com meu pai, que era lavrador, minha mãe, dona de casa, e meus nove irmãos. Minha família era muito humilde e enfrentávamos dificuldades financeiras. Comecei a trabalhar, aos 14 anos, como oficce boy. Como tinha que trabalhar, só consegui concluir o ginásio aos 18 anos. No final do curso, fizemos uma comemoração de encerramento das aulas. Sentamos na praça e bebemos rabo de galo, uma espécie de mistura de bebidas. Novamente passei muito mal, mas foi ainda pior.

Mudamos para a capital e comecei a trabalhar em um supermercado. A família era grande, então, todo mundo precisava trabalhar. No final de semana tomava um copo de cerveja e, às vezes, uma caipirinha. Era um consumo moderado, em casa. Aos 21 anos, fiz a prova para ingressar na Polícia Militar do Espírito Santo e fui aprovado. Era um novo grupo, eram novas pessoas. Estávamos todos dentro da mesma faixa etária e tínhamos muita vontade de nos divertir. Eu me sentia inibido. Se você bebe um pouquinho, se solta. Senti que, no meio da turma, pra eu me sentir melhor ou igual aos demais, tinha que fazer a mesma coisa.

Estudei três meses no Centro de Formação e Aperfeiçoamento e dois meses no Corpo de Bombeiros. O ano era 1975. Naquela época existiam as discotecas, às quartas-feiras, e outro tipo de discoteca às sextas-feiras. E aos sábados também. Nos juntávamos em grupos de dez a quinze e saíamos para a diversão.

Ao terminarmos o curso, começamos a trabalhar. E continuamos a beber, socialmente. Na parte da noite, retomei os estudos para concluir o segundo grau técnico em contabilidade. Agora eu tinha a turma do quartel e o grupo da escola secundarista. Sempre tinham aqueles que gostavam de beber e perto da escola havia um boteco. Tomávamos uma cerveja antes e outra depois que terminava a aula.

Veio o ano de 1977. Fui aprovado no concurso para sargento. Durante o período de qualificação não sobrava tempo pra quase nada, apenas para estudar. Acordávamos cedo e as aulas eram muito arrochadas no CFA.  Foi quando freei um pouco a ingestão de álcool. Mas veio a festa de formatura do curso de sargento. Bebi todas. Com dois anos de corporação, já estava sendo promovido a sargento e tinha dinheiro no bolso, um bom salário, era bem jovem e solteiro.

O ritmo começou a mudar quando conheci minha namorada na sala de aula do curso secundário. Ao lado dela, vieram outras atitudes. A turma de bebedeira se afastou. Quando bebia, agora, era em casa.

Um dia, numa visita à casa do meu sogro, na região serrana do estado, fui apresentado a uma cachaça saborosa. E gostei. O alambique se localizava a 50 metros da casa da família da minha namorada. Sempre quando voltava do passeio, trazia a cachaça para casa, na Grande Vitória. O uso passou a ser diário. Em 1981, veio o noivado, em seguida, o casamento. Logo fui transferido para trabalhar como bombeiro no sul do estado. A nova turma de amigos que se formou no interior apresentou-me uma nova cachaça. Lá, nasceu o meu primeiro filho. E depois, o segundo filho. Comemoramos com muita bebida alcoólica.

Inicialmente, a cachaça aparecia na minha vida esporadicamente. No começo eu bebia mais cerveja. Conforme era o grupo, era o número de copos de cerveja. A gente não tem a noção, perde o controle. Às vezes sai pra tomar um copo, acaba tomando cinco. As coisas foram acontecendo.

Voltei a trabalhar em Vitória, porém, por pouco tempo porque logo me transferiram para o norte do estado para assumir um cargo de subdelegado. Nesta época, o militar costumava, em algumas localidades, desempenhar funções hoje exclusivas da Polícia Civil.

Dentro da Polícia Militar, se a pessoa trabalha em um lugar e de repente é transferida para outro extremo, rapidamente se enturma e faz novos amigos. Isso acontece porque a corporação é um grupo que fala a mesma linguagem. O militar nunca é estranho no meio da tropa. Como estava começando o meu problema com o alcoolismo e sempre existem aqueles que também estão vivendo a mesma situação, não faltaram convites para um gole. Quem é bebedor sempre se identifica. Como tinham aqueles que bebiam mais, não demorei a me identificar com estas pessoas e passei a beber mais um pouquinho.

Depois de algum tempo, pedi exoneração do cargo de subdelegado e retornei à capital para fazer um curso de aperfeiçoamento de sargento. Após a qualificação, voltei ao norte do estado para assumir uma função como policial militar. Eu bebia quase todos os dias, geralmente no final de tarde. Raramente, eu passava um dia sem ingerir bebida alcoólica. Mas não achava que o alcoolismo havia tomado conta de mim. Eu sentia que bebia como as outras pessoas. Desempenhava minhas atividades no trabalho e tinha minha participação na igreja, onde assumi a função de catequista por três anos e até cheguei a um cargo de liderança.

A volta para o norte foi o começo do desenvolvimento da minha maneira de beber. Não jogo a responsabilidade pra cima de ninguém. Era o ambiente em que eu vivia, um ambiente de pessoas que gostavam de ingerir álcool. Então eu convivia com a bebida e gostava de beber e de estar junto.

Passou um tempo até eu começar a sentir que a bebida me incomodava.  Muitas vezes me vinha uma sensação de zonzeira quando tentava me manter de pé.

A ida para o norte parece ter sido mesmo o berço maior do desenvolvimento da doença na minha vida. Eu havia saído do curso de aperfeiçoamento de sargento. Neste período eu prestei o vestibular para o curso de Direito em uma faculdade de Colatina. Trabalhava na companhia até o meio da tarde e depois viajava para estudar à noite. No sábado, as aulas aconteciam na parte da manhã. Não tinha como beber muito por causa da rotina do curso, mas quando dava, ingeria álcool além da conta. Costumava beber na virada de sexta-feira para sábado com os colegas da faculdade. Como tinha aula no sábado, dormia em Colatina. Algumas vezes, era como se não estivesse presente em sala de aula. Muita ressaca, dor de cabeça. E nas férias, entornava mesmo.

Terminei a faculdade no início da década de 90. A doença progrediu. Eu guardava um litro de cachaça dentro da sala da unidade. Tomava uma dose antes do almoço e outra antes do jantar. Nesta época nasceu o meu terceiro filho. Às vezes, ouvia da minha esposa algum comentário sobre estar exagerando na bebida. A incomodava muito o fato de eu nunca querer ir embora das festas, insistindo em ficar. Já dirigi bêbado algumas vezes.

Permaneci no norte do estado até 97. De volta ao Quartel do Comando Geral, fui trabalhar no Departamento Pessoal. Quando o Corpo de Bombeiro se emancipou, numa época em que já havia me tornado tenente, retornei para esta corporação. Ao longo dos anos atuei em vários setores administrativos desde o almoxarifado até a diretoria de pessoal. Cheguei a ser chefe de seção e comandante de companhia de serviço.

Durante o horário de almoço, costumava sair para beber no restaurante próximo. Bebia durante o dia e à noite. Todos os dias, após o expediente, antes de chegar em casa, parava em um quiosque na praia para beber, no mínimo, três, e no máximo, cinco doses de bebidas quentes. Minha esposa começou a reclamar de atitudes que eu tinha quando estava embriagado, como uma certa falta de pudor. Nunca lembrava do que havia feito e não acreditava quando ela me contava porque era um comportamento completamente diferente da minha personalidade verdadeira.

De 97 a 2000 eu bebi todos os dias. A minha mente era alcoólica. Quando minha filha estava prestes a completar 15 anos, organizei uma festa regada a muita bebida: 20 caixas de cerveja, 10 litros de uísque, 25 garrafas de cachaça. Os convidados não beberam toda esta bebida. Consegui devolver uma parte para o fornecedor, mas guardei uma boa parte em casa. Organizei pequenos encontros e consumimos tudo.

Naquele ano, nós havíamos guardado R$ 20 mil numa conta-poupança. Este dinheiro estava reservado para a reforma da casa. Em um ano, eu gastei toda a economia da família com bebida. Quando minha esposa perguntou sobre o dinheiro para a obra, percebi que não restava mais nada. Em dezembro de 2000 eu cheguei ao fundo poço quando me envolvi em uma confusão em um quiosque da praia, o que resultou na minha prisão.

Uma assistente social do Corpo de Bombeiros me orientou a procurar o Presta (Programa de Reabilitação ao Toxicômano e Alcoolista do Hospital da Polícia Militar – HPM). Liguei e conversei com um representante do programa. Eu queria a internação porque estava começando a tomar consciência da situação. A partir da internação, comecei a conhecer o problema, a enxergar a doença. Antes, eu não tinha noção de que as minhas atitudes não eram normais.

Durante o tempo no programa, participei de todas as terapias, conheci os 12 passos do tratamento dos alcoólicos anônimos.  Nos primeiros 15 dias de internação houve muita luta interior. Pensava que todos os meus amigos bebiam, que em todos os lugares que eu frequentava sempre havia bebida. Senti uma resistência inicial.

Mas durante o atendimento o paciente conhece um conselheiro em recuperação que passa a mensagem sobre a mudança de comportamento e de hábitos e sobre a importância de buscar novos ambientes de convivência e relacionamento. Na internação também recebemos visita de integrantes dos Grupos de Alcoólicos e de Narcóticos Anônimos.

Ao longo do período de recuperação fiz uma autoanálise. O paciente tem muito tempo para olhar para dentro de si mesmo e para realizar esta viagem interior. As terapias te auxiliam nesta nova jornada. É quando você observa o que deixou de fazer na sua vida. Lembra-se das inúmeras vezes que deixou de viajar com sua família para economizar dinheiro para a bebida.

Quando uma pessoa bebe é normal se fechar por causa do orgulho e da prepotência. Ao longo do tratamento vamos descobrindo como nos comportamos e começamos a crescer. A humildade vai tomando conta de você. Cada dia é possível fazer novas descobertas e passar a trabalhar esta mudança dentro de si para se tornar uma pessoa serena.

A doença te deixa medroso, mais inseguro e incapaz de realizar qualquer coisa. O dependente perde oportunidades e a confiança em si mesmo. E as pessoas perdem a confiança em você. Tive muitas dificuldades dentro da minha família, no meu casamento, quando estava absorvido pela bebida. Na internação, minha esposa e filhos me visitaram e me apoiaram na busca pela recuperação. Recuperei o bom convívio familiar.

O mais difícil neste processo de reabilitação é aceitar que você é portador de uma doença, apesar de ter chegado ao fundo do poço. A partir da aceitação, algo começa a mudar.

A doença atinge o físico, o mental e espiritual. Com a ajuda do tratamento, o físico logo se recupera, você passa a gostar de si mesmo. O mental aos poucos se restabelece, pois é um processo mais lento de mudança de hábitos. O mental vai se libertando deste desejo e destas vontades. A transformação espiritual é ainda mais complexa, é conquistada um dia de cada vez. Voltei a buscar uma religião e, hoje, renovo a minha espiritualidade diariamente.

A minha internação aconteceu no período de 06 de dezembro de 2000 a 19 de janeiro de 2001. Estou no pós-tratamento há 13 anos. A sobriedade é contínua. Nunca mais fiz uso de qualquer substância que modificasse meu humor e o meu pensamento.

Estou colocando em prática as sugestões do programa. As terapias te ajudam a buscar a consciência sobre como viver uma vida sóbria e encarar o mundo sem beber. O tratamento te dá ferramentas para viver o dia-a-dia sem necessidade de beber e o programa te orienta a participar de diferentes grupos de autoajuda. Hoje sou representante da região sudeste dos Alcoólicos Anônimos.

Estou aposentado há 10 anos. Estou em recuperação. Eu queria dizer para quem bebe que, se ao sair de casa para uma dose ou um copo, você não conseguir permanecer nesta primeira dose ou neste primeiro copo, pode ser que você tenha um problema. Hoje me vejo como uma pessoa que conhece os próprios limites; sou responsável pelas minhas atitudes.

Cap. JBS