18 março 2014

Presta resgata vida de militares

 

Reconhecer o problema e procurar ajuda. Estas são decisões primordiais para quem sofre com a dependência química começar uma jornada de resgate da própria vida. Desde 1995 funciona dentro do Hospital da Polícia Militar (HPM) o Programa de Reabilitação à Saúde do Toxicômano e Alcoolista (Presta).

Com uma abordagem baseada na busca da consciência interior e no compartilhamento de experiências, o programa foi criado para oferecer assistência aos militares e seus familiares e hoje também atende à comunidade. No ano de 2013, o serviço realizou 3.759 atendimentos.

Para saber como funciona o trabalho, a Aspomires ouviu o coordenador do Presta, o tenente Rubens José Loureiro, enfermeiro, com especialização e mestrado em Dependência Química, professor de saúde mental e psicologia da Emescam.

 

Aspomires – Quando começou o Programa de Reabilitação à Saúde do Toxicômano e Alcoolista (Presta) do HPM?

Tenente Rubens – Começou a ser executado, em 1995, a partir da iniciativa da primeira tenente-psiquiatra do Hospital da Polícia Militar, doutora Carla Maria Ribeiro. Ela sonhava em montar esta assistência interdisciplinar porque muitos militares apresentavam problemas com a dependência química, principalmente, relacionada ao uso de álcool. Em princípio, o atendimento não era aberto à comunidade e direcionava-se ao militar ativo, ao da reserva e também aos familiares de militares. Depois, o atendimento foi estendido, mas nosso foco ainda é o militar e todo o contexto em que ele está inserido.

 

Aspomires – Qual o objetivo do Presta?

Tenente Rubens – Oferecer um tratamento especializado para que as pessoas que sofrem desta doença chamada Dependência Química, ocasionada pelo uso de álcool e também de outras drogas, possam resgatar a saúde psíquica e emocional, recuperar a autoestima e reconstruir seu projeto de vida.

 

Aspomires – Que tipo de tratamento é oferecido a quem procura ajuda?

Tenente Rubens – O tratamento é desenvolvido em três etapas. A primeira etapa é a pré-internação, um período de acolhimento e triagem em que a equipe desenvolverá o processo motivacional desta pessoa, prestará esclarecimentos sobre a dependência química e à respeito da doença da co-dependência, que afeta os membros das famílias dos dependentes. Depois deste primeiro momento, a pessoa entra na etapa de internação que dura de 35 a 42 dias. Esta etapa não prevê o uso de medicamentos. A terceira fase é a da pós-internação, etapa de acompanhamento que acontece todas as quintas-feiras e tem duração de dois anos.

A metodologia se fundamenta nas seguintes atividades: meditação, disciplina, relaxamento, estudo dos 12 passos de Alcoólicos Anônimos (A.A) e Narcóticos Anônimos (N.A); aconselhamento em dependência química; terapia corporal, psicodrama, terapia de artes diversas, atividade física, grupo de mútua ajuda, relaxamento, grupo de orientação familiar, prevenção de recaída, além de palestras sobre DST e Aids, entre outras questões de saúde de forma geral.

É como se ele estivesse numa escola de tempo integral, sendo que não voltará para casa à noite. Durante a internação, o paciente pode receber a visita da família. Apenas em duas situações, ele pode sair do espaço de tratamento: para fazer atividade física na praia com o acompanhamento do profissional de educação física e quando existe uma demanda de saúde que necessite de atendimento externo.

 

Aspomires – O que fazer para ter acesso à internação?

Tenente Rubens – Antes da internação, a pessoa precisa passar pelo período de triagem. Este tempo é importante para a desintoxicação. Para acessar a fase de internação, o dependente precisa estar, no mínimo, há cinco dias sem usar a droga, quando não existem tantos efeitos de abstinência, como haveria no caso de ele ter feito uso imediato, mas existe um preparo e orientação para que o cliente consiga chegar até esta fase. Em alguns casos, na fase da triagem, quando o dependente está tão intoxicado que precisa de uso de medicamento, ele chega a ficar até um mês neste período de preparação antes da internação. Por isso, a triagem tem um tempo indeterminado, pois depende de cada caso. Se tomamos este cuidado, quando chega na etapa do processo terapêutico, a pessoa está mais preparada para o tratamento.

 

Aspomires – Quantas vagas de internação são disponibilizadas pelo programa?

Tenente Rubens – O Presta disponibiliza 18 vagas; não trabalhamos com um grupo muito grande. Todo o tratamento se baseia em atividades coletivas. O espaço é composto pelos leitos de internação, salas de reunião e a área de lazer, além dos ambientes administrativos. A base do atendimento é o espelhamento, ou seja, se fundamenta no olhar para o outro e no enxergar-se no outro. Enxergar tanto os defeitos quanto as qualidades.

O interessante do programa é o grupo chamado pós-tratamento. Nesta terceira fase, após a internação de 40 dias, a pessoa volta ao programa uma vez por semana, no período de dois anos, para participar do grupo psicoterapêutico. É neste momento que quem está internado se encontra com quem passou pela internação e consegue ver no outro uma projeção no futuro, como se pode estar daqui a algum tempo. O dependente percebe que pode parar de usar a droga, voltar a trabalhar, reorganizar a sua relação com a família, entre outras conquistas.

 

Aspomires – O que faz o programa ter a chance de reabilitar?

Tenente Rubens – Em todo o tempo o programa estimula a autorreflexão, a tomada de consciência de si mesmo. Antes do processo de autoreconhecimento, o dependente é um objeto nesta relação com a droga. Ao quebrar esta dependência, o paciente começa a ter consciência dele mesmo e da sua identidade. Então, o princípio do tratamento é a consciência de si mesmo. Após a internação, ele prosseguirá no programa por mais dois anos como participante das reuniões que acontecem todas as quintas-feiras.

 

Aspomires – Quem compõe a equipe de trabalho?

Tenente Rubens – De natureza interdisciplinar, a equipe é composta por enfermeiros, médicos, psicólogos, assistentes sociais, terapeuta ocupacional e um profissional de educação física, além de um conselheiro em dependência química, uma pessoa que já enfrentou o problema e que, neste momento, assume o papel de ajudar no processo de reconstrução de vida de outras pessoas.

 

Aspomires – Uma das terapias utilizadas pelo programa é o psicodrama. Como funciona?

Tenente Rubens – Trata-se de uma estratégia terapêutica através do qual o paciente apresenta um fenômeno ou uma questão inerente à sua vida e o outro, utilizando a ferramenta da encenação, indica uma resposta, uma possibilidade de mudança. Por meio deste trabalho construído em grupo abre-se a possibilidade de superação de problemas.

 

Aspomires – Qual é o grau de reabilitação do programa?

Tenente Rubens – Trabalhar com dependência química é trabalhar com índice de recuperação em torno de 30 por cento. De cem pessoas que entram no programa, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, 30 vão se recuperar. Setenta voltarão a usar droga em um momento da vida. Isso não significa que eles estejam descartados. Significa que eles vão ressignificar esta experiência em outro momento.

Como acontece? O paciente vem, faz o tratamento, sai da internação e durante o pós-tratamento, tem uma recaída. O que fazemos com ele? Vamos ressignificar esta experiência: como podemos melhorar esta situação? É necessário um atendimento individual neste momento? Nós o resgatamos novamente para a reflexão. O programa o acolhe. Neste novo resgate, às vezes, o serviço social precisa até acionar esta família porque a recaída vem com um sentimento de culpa e de fracasso muito grande. A pessoa pensa: ah, não vou voltar mais não, eu não consegui. Mostramos que a recaída, muitas vezes, faz parte do processo de busca da recuperação e que o dependente pode ressignificar, ou seja, observar onde falhou, por que não seguiu seus objetivos e começar de novo.

 

Aspomires – Existem casos de sucesso?

Tenente Rubens – Temos, sim. Temos casos de militares que estavam completamente excluídos e alcançaram uma recuperação muito boa. Alguns deles reclamavam que, embora sempre tivessem trabalhado na vida, nunca tinham conseguido construir uma casa, nunca tiveram uma organização familiar e, após entrar no tratamento, começaram a ter algumas conquistas. Geralmente, ouvimos estas experiências na fase da pós-internação. No ano de 2013 tivemos quase 4 mil atendimentos entre pós-tratamento, acolhimento, triagem, palestras, grupos de famílias.  

 

Aspomires – Mas o que é um dependente químico? 

Tenente Rubens – A Dependência Química é um problema complexo. Não há um motivador único, mas existem fatores (biológicos, psicológicos e sociais) que vão favorecer ou não o estabelecimento da dependência. Dentro dos fatores sociais e biológicos existe um contexto familiar muito forte, um componente genético. Noventa e cinco por cento das pessoas internadas no Presta apresentam histórico familiar: o pai, a mãe ou avô já usou álcool ou outro tipo de droga. Embora a ciência ainda não tenha feito descobertas neste sentido, percebemos que existe este componente genético. Nós percebemos a força deste contexto familiar na vida do paciente.

Existem ainda os fatores psicológicos: são aqueles relacionados à personalidade do dependente, quando a estrutura psicológica da pessoa favorece a aceitação do uso da droga. Já os fatores sociais referem-se à presença da droga no cotidiano, no convívio social. As festinhas, por exemplo, sempre vêm acompanhadas de bebida alcoólica. A pessoa vai crescendo neste ambiente e se permitindo utilizar a droga.

Nunca é um fator só. Geralmente estes fatores se combinam. Por não ser um fator apenas, nos deparamos com uma doença de alta complexidade. Da mesma forma não é uma abordagem única que vai ajudar o indivíduo a se recuperar, mas um conjunto de medidas e atitudes.

 

Aspomires – E qual é o primeiro passo para a recuperação?

Tenente Rubens – O primeiro passo é a aceitação. É perceber que algo não está legal, que existe um descontrole na relação com esta substância, que as outras pessoas estão percebendo que este uso não tem sido confortável. O dependente percebe o prejuízo e a desorganização geral. Neste processo de conscientização, ele acaba por procurar ajuda.

 

Aspomires – Geralmente, o dependente acha que não está doente?

Tenente Rubens – Há um comportamento de negação. Porque existem os estágios no processo de dependência química. Um deles é o da contemplação, em que o sujeito tem uma relação profunda com a droga e não vê possibilidade de mudar isso. Neste caso, na visão do dependente, a droga forma com ele um bom casamento e não há prejuízo nenhum. O sujeito não está no momento de fazer tratamento quando se encontra neste estágio da dependência.

Daí, ele entra no período da pós-contemplação, quando começa a perceber alguns sinais de que esta relação não está muito legal, mas, nesta fase, o dependente não tem muita força pra conseguir parar.

Então, ele entra numa fase de ação, quando começa a fazer alguns movimentos de mudança da situação e até consegue ficar períodos sem usar droga, mas sofre muitas recaídas. Nesta fase, ele aceita ouvir e até vir para o tratamento. Depois vem a fase da manutenção, que corresponde ao período do pós-tratamento, ou seja, o paciente fez o tratamento, aceita que é um dependente, que não pode mais usar a droga e começa a colher frutos destas atitudes. É quando ele volta ao trabalho, a organizar o dinheiro dele e a dizer que os planos estão dando certo. Pode acontecer um acidente neste processo: é a recaída. Neste caso, ele pode voltar para a fase da contemplação, retornar para a negação. Ou pode voltar para a fase da ação, quando pensa: poxa, recaí, vou procurar ajuda porque está descontrolando de novo.

 

Aspomires – É difícil controlar e manter o tratamento justamente por causa desta complexidade de causas? A recaída acontece quando ele se vê diante de um fator de risco? Por que ele volta a usar?  

Tenente Rubens – O programa trabalha com duas questões: fatores de risco e fatores de proteção. Durante o tratamento, eles aprendem a identificar tais fatores. Em relação à proteção, quais são os fatores que, no ambiente do dependente, vão evitar que faça o uso da droga? Estes são os de proteção. Por exemplo, retomar as bases religiosas pode ser um fator de proteção para alguns pacientes. Conviver com sua família ou voltar ao trabalho pode ser um fator de proteção. Evitar os amigos de ativa e evitar ficar perto da droga podem ser fatores de proteção. Ao contrário, os fatores de risco são aqueles que facilitam o dependente a voltar a usar a droga.

 

Aspomires – E cada um tem seu fator de proteção? 

Tenente Rubens – Cada um tem seu fator de proteção e de risco. Às vezes, a família é fator de proteção pra alguns e fator de risco para outros. 

 

Aspomires – Durante a internação, ele aprende a identificar os fatores? 

Tenente Rubens – Aprende. Temos um grupo de prevenção de recaída coordenado por uma psicóloga que vai discutir estes fatores individualmente dentro do grupo. Juntos, eles resgatam tais questões para serem trabalhadas de modo compartilhado.

 

Aspomires – A atividade do policial militar é um fator de risco? 

Tenente Rubens – A atividade policial é estressante. Alguns policiais podem fazer uso de alguma substância com o objetivo de aliviar o estresse. Temos casos de militares que fazem uso de benzodiazepínicos, outros de álcool, e que acabam desenvolvendo a dependência química. A atividade policial pode ser um fator de risco para uma determinada pessoa, não para outras. Isso porque as causas são complexas, multifatoriais. O que pode acontecer: o policial teve um dia estressante, então, chega em casa e toma um comprimido de benzodiazepínico. Ou decide beber uma dose ou um copo de bebida alcoólica porque o dia de trabalho foi cansativo. E nesta relação dele com a substância – fundamentada em um contexto psicológico específico daquele indivíduo – pode ser que desenvolva o processo da dependência. Mas não é a atividade policial isolada e generalizada a causadora da dependência, entretanto existe uma cultura de banalização do uso em algumas empresas.

 

Aspomires – Você tem uma pesquisa na área da dependência química. Em que consiste o seu estudo e quais os resultados alcançados?

Tenente Rubens –  O objetivo da pesquisa foi identificar por que muitos policiais militares que passaram pelo programa tinham dificuldades de retornar ao hospital para fazer o pós-tratamento. Ele frequentava as reuniões por alguns meses e depois não retornava mais. Durante a investigação, descobri que alguns tinham história de recaída e ficavam com vergonha de retornar. Tinha aquele que não voltava porque o próprio comandante não o liberava por achar que não precisava mais continuar o tratamento. Outros não voltavam por conta de conflitos familiares. Existiam aqueles que deixavam de vir por causa da distância e da falta de recurso para se deslocar semanalmente para fazer o pós-tratamento. O estudo apontou saídas como a realização de palestras educativas dentro dos batalhões, o que facilitou o contato mais direto com este comandante de modo a favorecer a chegada ou o retorno da pessoa ao programa.

 

Aspomires – Existe preconceito dentro da corporação em relação ao militar dependente? 

Tenente Rubens – Dentro da nossa corporação, quando a pessoa apresenta algum quadro relacionado ao uso de álcool e outras drogas, existe o preconceito, existe o estigma. Foi o que eu percebi também a partir da minha dissertação. O trabalho educativo tem contribuído para combater esta postura. Nós temos tido retorno dos pacientes militares; eles recebem alta e retornam para participar do grupo de acompanhamento.

 

Aspomires – Quais são as regras do programa?

Tenente Rubens – Trabalhar com dependência química exige disciplina e organização. O paciente aprende sobre a organização dos quartos, a necessidade de lavar a própria roupa, cuidar da aparência física e da higiene pessoal. Tudo isso é regra. São obrigatórios o respeito ao outro e a participação nos grupos. Durante o tratamento a pessoa exercita valores como o respeito ao outro, a solidariedade, o saber ouvir, o deixar o outro falar.

 

Aspomires – São mais homens ou mulheres? Qual a faixa etária dos pacientes?

Tenente Rubens – Dependência Química tem uma característica interessante. As mulheres procuram menos o tratamento do que os homens. E no Presta temos atendido mais homens. A última internação feminina aconteceu em novembro de 2012. A estrutura física do programa não tem facilitado a internação feminina. Não se pode misturar, pois gera muito conflito. Temos preferido mais encaminhar as mulheres para outros programas do que internar as pacientes. Estamos planejando investir na estrutura física com a instalação de câmeras de monitoramento para internação das mulheres novamente. Apesar disto, temos mulheres que passaram por aqui antes de 2013 e ainda frequentam os grupos de pós-tratamento.

 

Aspomires – E a idade?

Tenente Rubens – É variável. Só que 40 a 60% da nossa clientela estão na faixa etária dos 20 aos 40 anos. Hoje 20 por cento dos pacientes internados são militares. Temos um dependente de militar.

 

Aspomires – Como fazem a seleção destes pacientes? 

Tenente Rubens – Existe uma demanda grande pelo atendimento. Pra atender à procura, organizamos o grupo de acolhimento. A pessoa liga na segunda-feira, a partir das oito horas da manhã, e marca a consulta de acolhimento. Enquanto tem vaga, o telefone fica aberto. Na mesma semana, ela é atendida, passa por esse grupo e recebe informações sobre a dependência química e os tratamentos oferecidos no Espírito Santo. A partir daí, a pessoa escolhe o tratamento que pretende fazer. É ela quem escolhe o programa.

No Presta, ela será encaminhada para a primeira fase – a triagem – dando início ao tratamento individual. Nesta fase, a pessoa recebe mais informações e, se for necessário, poderá ser encaminhada para a consulta médica. O tempo de triagem irá variar de pessoa pra pessoa. Se estiver sem usar droga há uma semana e se houver vaga, ocorre o encaminhamento para a internação. Se não houver vaga, a pessoa continua sendo acolhida na fase de pré-internação. Em média, são quatro consultas. Na triagem, ela tem contato com o psicólogo e o profissional deste setor cujo atendimento é individual; ainda não tem contato com o grupo de residentes.

 

Aspomires – Tem pessoas que ficam somente no acolhimento?

Tenente Rubens – Algumas pessoas entram no grupo de acolhimento e decidem procurar a igreja ou vão para o tratamento ambulatorial. Outros preferem ir para a internação.

 

Aspomires – Em nenhum momento é usada a medicação?

Tenente Rubens – Nesta fase de acolhimento, quando o terapeuta percebe que aquela pessoa precisa fazer uma desintoxicação, há um encaminhamento para o médico. Neste estágio ele pode começar a tomar remédios até ficar pronto para a internação.

 

Aspomires – O que acontece com aqueles que não querem dar continuidade ao tratamento?

Tenente Rubens – O período de seis meses é o mais complicado pra quem está iniciando o tratamento, pois o dependente tem uma variação de humor muito grande, uma instabilidade de ambiente. Quando o paciente não quer permanecer no tratamento, o programa o encaminha para o serviço de psicologia – pra que ele tenha um suporte – ou para um grupo de mútua ajuda, como os narcóticos anônimos, os alcoólicos anônimos, e ele assume um processo de tratamento diferente do oferecido no HPM.

 

Aspomires – Qual é a droga mais comum? 

Tenente Rubens – O álcool continua sendo a droga mais usada. Entretanto, no grupo de acolhimento, o uso de crack chega a 90% dos pacientes. Não é o crack puro, é o crack associado a outras drogas. Geralmente, o dependente começa com a maconha e a doença vai evoluindo até chegar ao crack. Quando privilegia o crack, o dependente tem uma tendência de deixar as outras drogas. Mas, às vezes, o dependente tenta reequilibrar isso com o uso do álcool e da maconha. Ele acaba por misturar o crack com a maconha. Geralmente, a dependência acontece de forma cruzada.

 

Aspomires – O tabaco entra? 

Tenente Rubens – Quando o paciente entra na internação, não pode fumar. Durante a fase de triagem, desenvolvemos o trabalho de retirada do cigarro em preparação para a internação. Mas no momento em que o paciente é internado, não lhe é permitido fazer uso do cigarro dentro do hospital. O programa faz um link com o Programa de Combate ao Tabagismo e com o Programa de DST/Aids para dar suporte a este paciente. Cabe ressaltar, a dependência química tem uma relação muito grande com as doenças sexualmente transmissíveis porque o paciente diminui muito o senso crítico, o que o leva a atitudes como manter relações sexuais sem camisinha. No período de internação, o programa trabalha a prevenção destas doenças.

 

Aspomires – E por que este tempo de 40 dias? 

Tenente Rubens – O programa é desenvolvido em etapas. O paciente entra na fase de adaptação. Depois, recebe a primeira atividade do programa que é um questionário de avaliação. Logo depois, parte para o processo inicial de adaptação e depois segue para o primeiro passo, segundo passo, terceiro passo, quarto passo, assim por diante. São passos dos grupos de mútua ajuda. Quando chega ao quarto passo, o paciente é direcionado para a pós-internação.

 

Aspomires – Qual o principal conselho para quem chega e para quem sai do programa? 

Tenente Rubens – Abrir o coração para ouvir a mensagem. Internalizar a mensagem. Tomar a consciência deste processo de transformação. Valorizar a própria vida. É isso que o programa fala para os pacientes.

 

Aspomires – E o co-dependente? Ele também tem o momento de preparação para esse enfrentamento? 

Tenente Rubens – O co-dependente participa do Grupo de Terapia Familiar, toda quinta-feira, das 14 às 16 horas, no auditório do HPM. Os parentes recebem conselhos à respeito da co-dependência e sobre como o problema acontece na família. É neste momento que eles dizem como se colocam dentro do processo da co-dependência. O grupo é formado por familiares de quem está internado e de quem está no pós-tratamento. Por semana, 30 pessoas, aproximadamente, participam da reunião.

 

Aspomires – E existem mudanças no co-dependente? 

Tenente Rubens – Sim, é muito interessante porque paralelamente à transformação do paciente, percebe-se a transformação da família no comportamento, nas atitudes, no jeito de falar. Eles vão se envolvendo com o programa. Ao final, acontece uma avaliação conjunta pra a liberação da alta. Conversamos com o paciente, a família e a equipe. Daí, ele recebe a alta.

 

Aspomires – Dependência Química tem cura? 

Tenente Rubens – O programa não trabalha com o conceito de cura, mas com uma doença que pode ser bloqueada à medida que acontece uma mudança de comportamento. Por exemplo, o dependente pode ficar sem beber hoje. Se dentro de oito anos voltar a fazer o uso, pode ser que todo o processo retorne. Por isso, não podemos dizer que a dependência tem cura. Porque não entendemos que a pessoa que desenvolveu a dependência vá voltar a fazer o uso social ou controlado. Isso não é possível. O uso será sempre patológico. Tem que evitar o novo contato.

 

SERVIÇO

Programa de Reabilitação a Saúde do Toxicômano e Alcoolista (Presta)

 

1 – Profissionais de Segurança Pública

– Individualmente por meio do agendamento feito pelo telefone (27) 3636-6581 ou procurar diretamente o Presta;

– Através de encaminhamento feito pelos ambulatórios e enfermarias do HPM;

– Através de encaminhamento dos setores de atendimento psicossocial dos órgãos de Segurança Pública.

 

2 – População

– Agendamento pelo telefone (27) 3636-6581 às segundas-feiras a partir das 8 horas.

Email de contato: secretariapresta.ds@pm.es.gov.br

 

Endereço

Hospital da Polícia Militar (HPM)

Avenida Joubert de Barros, 555 Bento Ferreira

Vitória/ES – CEP 29050-720

 

Conheça os Doze Passos (para os Alcoólicos Anônimos):

 

1 – Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.

2 – Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.

3 – Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.

4 – Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.

5 – Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.

6 – Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.

7 – Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.

8 – Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dipusemos a reparar os danos a elas causados.

9 – Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem.

10 – Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.

11 – Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade.

12 – Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a esse Passos, procuramos transmitir essa mensagem aos alcoólicos e praticar esses princípios em todas as nossas atividades.