5 março 2014

Tráfico Humano é tema da Campanha da Fraternidade 2014

 

Quase 30 milhões de pessoas são forçadas a viver na escravidão em todo o mundo hoje. O alerta é da organização não-governamental Walk Free, um movimento de pessoas de todos os lugares do mundo que luta para acabar com a escravidão moderna.

O assunto também chamou a atenção da Igreja Católica. Com o Tema “Fraternidade e Tráfico Humano” e o Lema “É para a liberdade que Cristo nos libertou”, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou nesta quarta-feira (05/03), em Brasília, a Campanha da Fraternidade 2014.  A cerimônia contou com a presença do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Na Grande Vitória, o lançamento será feito pela Arquidiocese de Vitória, no domingo (09/03), a partir de uma caminhada penitencial, com concentração às 14 horas, na Igreja do Rosário, na Prainha, em Vila Velha, em direção ao Convento da Penha.

O Tráfico Humano, Tráfico de Seres Humanos ou Tráfico de Pessoas, como costuma ser definido, é um crime contra a dignidade da pessoa humana. Atualmente, este crime é praticado por meio do tráfico para exploração do trabalho, o tráfico para exploração sexual, o tráfico para extração de órgãos e o tráfico de crianças e adolescentes.

O objetivo geral da campanha “é identificar as práticas de tráfico humano em suas várias formas e denunciá-lo como violação da dignidade e da liberdade humana, mobilizando cristãos e a sociedade brasileira para erradicar esse mal, com vista ao resgate da vida dos filhos e filhas de Deus”, conforme orientação do texto-base criado pela igreja para orientar e inspirar os fiéis.  De modo específico, a campanha pretende denunciar as estruturas e situações causadoras de tráfico humano, reivindicar políticas públicas e meios de reinserção das vítimas e promover ações de prevenção, dentre outras finalidades.

Cabe ressaltar que a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), em seu artigo primeiro, define que “todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”.

De acordo com o Protocolo de Palermo (2000), instrumento da Convenção das Nações Unidas de orientação para prevenção, repressão e punição em relação a este tipo de crime, o tráfico de pessoas é definido como “O recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração.”

Todos os anos, a Igreja Católica propõe à sociedade brasileira a reflexão e o diálogo sobre um tema relevante para a busca da justiça e da paz social. O anúncio da campanha acontece, anualmente, na Quarta-Feira de Cinzas, marco inicial da Quaresma, um tempo de conversão em preparação para a Páscoa, a grande festa da ressurreição de Jesus Cristo.

Como forma de apoiar a campanha contra o Tráfico Humano e saudar os brasileiros no tempo quaresmal, o papa Francisco enviou mensagem aos bispos da CNBB e a todos os fiéis das dioceses, paróquias e comunidade do Brasil.

Em um dos trechos, o sumo pontífice declara: “(…) Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano!”.

Mais informações e materiais de divulgação sobre a campanha através do link: http://www.cnbb.org.br/campanhas-1/fraternidade/13702-cnbb-disponibiliza-material-da-cf-2014.

 

Confira na íntegra a mensagem do Papa Francisco:

 

Queridos brasileiros,

 

Sempre lembrado do coração grande e da acolhida calorosa com que me estenderam os braços na visita de fins de julho passado, peço agora licença para ser companheiro em seu caminho quaresmal, que se inicia no dia 5 de março, falando-lhes da Campanha da Fraternidade que lhes recordo a vitória da Páscoa: <<É para a liberdade que Cristo nos libertou>> (Gal 5,1). Com a sua Paixão, Morte e Ressurreição, Jesus Cristo libertou a humanidade das amarras da morte e do pecado. Durante os próximos quarenta dias, procuraremos conscientizar-nos mais e mais da misericórdia infinita que Deus usou para conosco e logo nos pediu para fazê-la transbordar para os outros, sobretudo aqueles que mais sofrem: <<Estás livre! Vai e ajuda os teus irmãos a serem livres!>>. Neste sentido, visando mobilizar os cristãos e pessoas de boa vontade da sociedade brasileira para uma chaga social qual é o tráfico de seres humanos, os nossos irmãos bispos do Brasil lhes propõe este ano o tema “Fraternidade e Tráfico Humano”.

Não é possível ficar impassível, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, etc. Isso é tráfico humano! <<A este nível, há necessidade de um profundo exame de consciência: de fato, quantas vezes toleramos que um ser humano seja considerado como um objeto, exposto para vender um produto ou para satisfazer desejos imorais? A pessoa humana não se deveria vender e comprar como uma mercadoria. Quem a usa e explora, mesmo indiretamente, torna-se cúmplice desta prepotência>> (Discurso aos novos Embaixadores, 12/XII/2013). Se, depois, descemos ao nível familiar e entramos em casa, quantas vezes aí reina a prepotência! Pais que escravizam os filhos, filhos que escravizam os pais; esposos que, esquecidos de seu chamado para o dom, se exploram como se fossem um produto descartável, que se usa e se joga fora; idosos sem lugar, crianças e adolescentes sem voz. Quantos ataques aos valores basilares do tecido familiar e da própria convivência social! Sim, há necessidade de um profundo exame de consciência. Como se pode anunciar a alegria da Páscoa, sem se solidarizar com aqueles cuja liberdade aqui na terra é negada?

Queridos brasileiros, tenhamos a certeza: Eu só ofendo a dignidade humana do outro, porque antes vendi a minha. A troco de quê? De poder, de fama, de bens materiais… E isso – pasmem! A troco da minha dignidade de filho e filha de Deus, resgatada a preço do sangue de Cristo na Cruz e garantida pelo Espírito Santo que clama dentro de nós:<< “Abbá, Pai!”>> (cf. Gal 4,6). A dignidade humana é igual em todo o ser humano: quando piso-a no outro, estou pisando a minha. Foi para a liberdade que Cristo nos libertou! No ano passado, quando estive junto de vocês afirmei que o povo brasileiro dava uma grande lição de solidariedade; certo disso, faço votos de que os cristãos e as pessoas de boa vontade possam comprometer-se para que mais nenhum homem ou mulher, jovem ou criança, seja vítima do tráfico humano! E a base mais eficaz para restabelecer a dignidade humana é anunciar o Evangelho de Cristo nos campos e nas cidades, pois Jesus quer derramar por todo o lado vida em abundância (cf. Evangelii gaudium, 75).

Com estes auspícios, invoco a proteção do Altíssimo sobre todos os brasileiros, para que a vida nova em Cristo lhes alcance, na mais perfeita liberdade dos filhos de Deus (cf. Rm 8, 21), despertando em cada coração sentimentos de ternura e compaixão por seu irmão e irmã necessitados de liberdade, enquanto de bom grado lhes envio uma propiciadora Bênção Apostólica.

Vaticano, 25 de fevereiro de 2014.

Francisco

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