11 agosto 2013

Trinta anos de força e sensibilidade feminina

 

Quando Ada terminou o curso técnico de Estradas na antiga Escola Técnica Federal do Espírito Santo (ETEFES), em meados dos anos 80, guardava o sonho de ingressar em uma grande empresa privada, assim como muitos jovens da sua idade. Estudiosa e esforçada, a adolescente logo conquistou a chance de realizar seu projeto profissional com a admissão no estágio em uma das mais importantes mineradoras do mundo.

O que a garota não imaginava era que seu caminho estava prestes a mudar de direção. Nesta época, o Governo do Espírito Santo dava o primeiro passo para abertura do quartel ao ingresso das mulheres no trabalho militar. Junto com outras amigas, Ada encarou o desafio histórico e foi classificada dentro da primeira turma de policiais militares femininas do estado. O ano de 2013 marca os 30 anos do ingresso da mulher na corporação capixaba. Hoje, com 48 anos de idade, a capitão PM Ada Maria Carniato, esbanja orgulho e alegria de pertencer à instituição e conta como foi esta conquista para mulheres e homens.

História – A entrada da mulher na instituição foi autorizada através do Decreto Nº 2569-E, assinado pelo governador Gerson Camata, no dia 06 de maio de 1983. Criava-se a Companhia de Polícia Feminina. Três meses depois, deu-se início ao 1º Curso de Formação de Sargentos Femininos. A 1ª turma do Curso de Formação de Soldados Femininos se formou em 1º de agosto de 1986. No ano seguinte, em 19 de maio de 1987, foram incorporadas as primeiras integrantes femininas oficiais combatentes ao Curso de Formação de Oficiais da Polícia Militar do Espírito Santo.

Resistência – Mas a jornada não foi fácil. Apesar da inovação lançada pelo decreto, o  ambiente tradicionalmente masculino impunha ainda uma barreira cultural a ser quebrada marcada pelo preconceito, desconhecimento e pelo medo dos homens em relação ao novo posicionamento da mulher no mercado de trabalho e na sociedade.

“Ao entrarmos na corporação, alguns policiais masculinos tiveram dificuldade em nos receber. Havia resistência e o ambiente era muito machista, afinal era uma instituição de 148 anos”, conta a policial. Ada atuou mais de 20 anos em atividades operacionais de trânsito, o que a estimulou também a estudar Direito, formando-se em 1994. Chegou a coordenar a parte policial da Justiça Volante.

Quando foi designada para atividades de comando, ela chegou a presenciar problemas de insubordinação cometida por alguns policiais masculinos contra outras militares femininas, mas, aos poucos, a resistência perdeu lugar para o entrosamento, o diálogo e a parceria. “O tempo contornou os problemas e quem resistia à nossa presença passou a confiar no nosso potencial. Perceberam que a mulher não queria disputar o espaço com o homem, mas somar forças e habilidades”, explicou.

Mediação de conflitos – A capitão atuou em mais de 20 mil ocorrências no período de 1983 a 2006, acompanhando diferentes situações de ostensividade. “Me apaixonei pelo trabalho. Fiz várias detenções, mas nunca precisei efetuar um disparo, nunca respondi a um processo administrativo. Sempre tive muita fé em Deus e sabedoria para trabalhar. Estive presente em diversas ocorrências em que a pessoa estava transtornada, embriagada ou em choque, mas aprendi a controlar estas situações com calma, evitando as vias de fato”, contou.

Atualmente, a capitão trabalha na Assessoria Militar do Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Para ela, o ingresso das mulheres na corporação também contribuiu para a reflexão sobre as questões de gênero. “A entrada da mulher na polícia contribuiu também para fazer com que a própria sociedade começasse a romper esta resistência e esta ideia de que o trabalho policial é uma função exclusivamente masculina”, avalia.

Hoje, as mulheres estão presentes em diversas áreas administrativas e operacionais da corporação. Para lembrar a conquista, várias atividades solenes, sociais e religiosas marcaram a programação dos 30 anos da presença da mulher na Polícia Militar do Espírito Santo. Um dos destaques foi a criação pelos Correios do selo personalizado e do carimbo comemorativo em homenagem às policiais militares femininas.

Fotos: Arquivo Pessoal da capitão PM Ada Carniato